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04 April 2011

A Vida é uma Doença ou os Direitos das Coisas

Prólogo
Mais do que a filosofia/arquelogia do proibido permanecer, é, já em Portugal depois da viagem, que numa releitura de Nietzsche, encontro um tema essencial a esta parte da minha vida: a “doença”. É o ponto fulcral do inicio da desconstrução. Desconstruir a doença é já desconstruir o tema da vida, do homem e da ideia.
Nas entrelinhas, Deleuze traz Bergson, Espinosa e des-Hegel mas é Derrida quem ultrapassa Nietzsche. Ao contrário de Nietzsche e Deleuze, Derrida não sorri ou chora. Não há drama ou emoção em Jacques Derrida, ele vai mais sério e, num tom muito igual ao de Godel, põe as suas palavras a darem tiros em si mesmas. Homem que olha o horizonte depois de ter quebrado o seu ultimo instrumento. Um homem  é um animal com instrumentos. Como pensar como um animal se ser animal é so’ esse não pensar?

Nós em conversa
Levei nesta viagem uma mensagem de voz gravada no meu telemóvel. Ia para casa às tantas da noite depois de um longo dia de trabalho e, enquanto conduzia, falava para mim futuro. Ouvi a mensagem muitas vezes durante a viagem.
A mensagem começava com um grande arroto e depois: “a pergunta para o viajante é: porque não passaste o dia a pensar o que foi feito do tempo que passou? Porque não passaste o dia a pensar o que é que fizeste da tua vida? Porque não passaste o dia a pensar: o que é que vais fazer? Porquê? Porque é que vais fazer o que vais fazer? Porque não passaste o dia a pensar: porque é que não paras?”. Resumindo, a pergunta para o viajante sempre foi “Porque é que é proibido permanecer?”.


Porquizar
A pergunta para o viajante é sempre: porque viajas? Como a pergunta para o vivente é sempre: porque vives? E tanto viagem como vida se unem no movimento: porque te moves? E daqui para a negação do porquizar (perguntar “porquê?”) num porquenizar (perguntar “porque não?”): porque não paras? Que se desdobra num, porque não acabas a viagem? Idêntico a um, porque não te deixas morrer? E assim chegados a um espaço comum da filosofia: porque não aceitas a morte?
Viajar/viver é não aceitar a morte. A morte é inaceitável. A morte é O inaceitável.

Oquiézar
Antes de respondermos será certamente melhor trocar o porquizar pelo oquiézar (perguntar “o que é?”). Antes de perguntar “porquê?”, perguntemos “o que é?”. O que é a vida?
Será a morte o verdadeiro oposto da vida? E ao perguntar isto sentir desde logo o não estarmos em terreno de realidades (seja lá o que isso for) mas o estarmos apenas em espaços linguísticos e, talvez, lógicos.
E nem referimos sequer a pergunta inicial, que não é tanto o “porque não paras de viajar?”, mas a mais simples, como viajar? Como viver? Mas a simplicidade é aparente. Para oquiézar uma coisa, é necessário oquiézar todas as coisas. Responder a uma pergunta, é responder a todas. E aqui voltamos a sentir o peso da lógica, uma resposta tem de encontrar outra. As respostas têm de ser coerentes.
E é talvez aqui que entendemos que, quando perguntamos, temos já’ muitas expectativas. Levamos na pergunta já’ assunções. Vai já na pergunta alguma (TODA A) resposta. E por este caminho chegamos, ainda antes de começar a responder, a’ pergunta das perguntas: “porque pergunto?”, porque porquizo? (Há’ quem diga que) tudo o que podemos fazer é perguntar.
Portanto, para responder a’ pergunta “o que é a vida?” temos de, antes (e talvez baste para responder), perguntar o que é que vai já’ nessa pergunta. Não só o “porque pergunto” mas o “o que pergunto”. Ou mais simples, por um lado: porque estou a perguntar “o que é a vida?” e não, por exemplo, “o que é a comichão?”, e por outro, que partes da resposta ou que tipo de resposta a’ pergunta “o que é a vida?” estou a assumir quando pergunto “o que é a vida?”. O passo seguinte é, Heidegger, trocar “vida” por “ser”: o que é ser, ou, “o que é ser” para eu estar a perguntar “o que é ser?” (e ainda o “o que é o ser para o ser que o é?”). Mas não vou por ai, nem por aqui.

A vida morta não é a morte viva
Os opostos podem ser igualizados. A tese base é que os opostos são iguais (dai a palavra lógica carregada) e que as respostas so’ aparecem (num mundo em que só há perguntas) pela separação dos opostos iguais. E daqui derivamos que a resposta às perguntas vem da forma como separamos os opostos. Basta-nos entender como separamos os opostos para chegar a algumas respostas. Ao dizer vida, dizemos principalmente não morte. Mas qual é a diferença? O que separa estes opostos? Ou melhor, como separamos, NO’S, estes opostos? Porque é que a vida não é a morte? (ou uma das milhões de perguntas equivalentes aqui, por exemplo: porque é que estar em movimento é diferente de estar parado?)

1. A morte viva, o vírus. Há 10 anos atrás, no café’, dois jovens (agora cientista e clínico) perguntavam entre si: o que é um ser vivo? Eu ouvia, e ainda ouço, a pergunta sem resposta. E na altura como agora, o exemplo, o vírus! Uma morte que afinal é vida.

2. A vida morta, a pedra de Sisifo. No mito de Sisifo, o homem é condenado a empurrar a pedra montanha acima para, chegado ao topo, deixar a pedra rolar montanha abaixo. Recomeçando até a’ eternidade. Quem estará vivo? Será o homem ou será a pedra? A pedra que rola montanha abaixo é tão viva como Sisifo. A pedra talvez seja mais viva do que Sisifo. Sisifo é condenado a algo mais significativo do que a gravidade a que a pedra esta’ condenada. Seremos nós pedras que rolam montanha a baixo? Que factores mostram vida?

3. Schopenhauer tem uma passagem quase cómica que compara a morte ao processo de defecar: se não ficamos tristes com o perdermos parte do nosso corpo quando defecamos (dado que o processo de VIDA se mantém para alem disso), porque haveríamos de ficar tristes por perdermos o nosso corpo (se o processo de VIDA se mantém para além disso)? Isto para alem de que quando mudamos a nossa forma de ser, não lamentamos a morte daquilo que deixamos de ser!


A vida doença e a morte saúde
A frase de Nietzsche que inspira todo este texto é “a doença é uma perspectiva sobre a saúde e vice-versa”. O que leva ao “a vida é uma perspectiva sobre a morte e vice-versa”. Que é o mesmo que dizer que são apenas diferenças superficiais que dividem estes conceitos. Vida e morte são a mesma coisa. Ou melhor, vida e morte são aspectos da mesma coisa.
Será morte sinónimo de saúde?
A energia que vem de dentro é a vida, e é também a doença: a ansiedade. “A ansiedade é o único sentimento irredutível”, diz Freud.  Porque não abandonar esta energia que vem de dentro, esta ansiedade? E porque não me torno uma pedra?
É proibido permanecer, porque permanecer é acumular ansiedade e a ansiedade é a vida. E permanecer é a morte no sentido em que abafamos ou aniquilamos ou absorvemos a ansiedade, a ansiedade que é vida. Permanecer é morrer. A vida é uma doença. A saúde é a paz calma, a saúde é a morte. Confuso!?
A vida é uma doença é um exercício para tornar tangível o demasiado simples: o bom é mau. Ou, o bom e o mau são a mesma coisa. Não passam de perspectivas.


O homem não animal, o animal não vegetal, o vegetal não mineral, o mineral não, o objecto e a coisa
Quando me falam em Direitos dos Homens eu só penso nos Direitos das Pedras, calcadas, cuspidas e atiradas a toda a hora! Mas ainda não foi desta que consegui explicar a importância fulcral dos Direitos das Coisas para a minha saúde. Risos.
Quem chegou aqui merece um poema, isto é um poema:

O homem não animal,
o animal não vegetal,
o vegetal não mineral,
o mineral não,
o objecto e a coisa.

27 December 2010

No depois, restam-nos palavras

A viagem não e’ este blog, digo para mim acusando-me de o pretender sempre que aqui venho. Um texto e’ só um texto. As palavras não são as coisas, são outras coisas. Mas agora que já’ não viajo restam-me apenas palavras. No depois, restam-nos palavras? Só elas são apalpáveis. Como se atiram memorias despalavradas contra uma parede? Felizmente o mundo não e’ uma parede de palavras (sempre viscosamente) agarradas nas paredes… um blog.
Seguem algumas entradas sobre temas que, como exemplo do que acabo de escrever, quase não passaram neste blog mas que habitaram permanentemente esta viagem: comida, arqueologia e arte.

10 October 2010

A experiência do animal (becoming animal)

Vou tentar explicar a experiência do homem/animal. Experimenta fazer isto com alguém que conheças muito bem, o teu parceiro por exemplo.

Passo 1: começa por olhar nos olhos dessa pessoa. Ali esta’ alguém que conheces muito bem, uma cara familiar, um sentimento de conforto provavelmente ate’.

Passo 2: deves agora fixar-te nos olhos dessa pessoa, aprender os detalhes do olhos, se a cor e’ uniforme, se muda do interior para o exterior, se o lado direito do olho esquerdo e’ mais riscado que o lado esquerdo do olho direito, ou outra coisa qualquer que ve’s todos os dias, mas nunca viste.

Nota 1: aqui falo so’ disso mesmo, ver o que vemos mas não vemos. Ver aquilo que esta la’ mas não vemos, que nos dará acesso, mais tarde, a outras realidades. Porque “realidade”, todos dizem, e’ isso que todos vemos. Mas se todos não vemos tudo aquilo que vemos, que realidade e’ esta? O exercício leva-nos para ale’m desta realidade. Para outra, uma qualquer! O exercício e’ portanto um exemplo.

Nota 2: se não tiveres parceiro ou quiseres ter resultados mais interessantes, faz o exercício ao espelho. Não acredito que conheças todos os detalhes dos teus próprios olhos, como quem conhece todos os detalhes da sua própria mão, ou do seu nariz. Pode ser perigoso! (Pirandello)

Passo 3: depois de te teres perdido nos detalhes dos olhos que estão a’ tua frente, foca-te num so’ olho, repara como abre e fecha, concentra-te nas pestanas e depois nas mucosas laterais e naquela membrana que segura os olhos la’ dentro. Depois olha a pele interior que se ve’ a tocar no olho logo ao lado das pestanas.

Passo 4: depois de alguns minutos de círculos de atenção, aos poucos, vais começar a ver aquele olho, talvez outro olhoO risco a traçar vai da cara da pessoa que conheces ate’ ao olho que e’ igual ao de um lagarto. Aos poucos aquele olho passa a ser animal. Passa a ser uma coisa estranha, viscosa.

Passo 5: depois de o olho se ter tornado estranho podes desfocar, podes voltar ao todo, podes concentrar-te na cara, no pescoço, no corpo. Nas suas rugosidades ou plasticidades. O objectivo e’ no final olhares a pessoa com quem te sentias confortável e sentires um animal estranho a’ tua frente, as pálpebras para cima e para baixo, os lábios de carne molhados, a pela da cara a esticar e contrair-se: eu amo um lagarto!

Passo 6: quando este lagarto começar a falar outra vez contigo (ate’ aqui a experiência tem de ser feita em silencio), a sensação atinge o seu auge se não entenderes o que diz. Portanto, se ele ou ela fizer alguma coisa que tu não entendas melhor: estás perante um animal estranho.

Passo 7: aos poucos voltaras atrás, a pessoa passara’ a ser a normal que sempre conheceste e te faz sentir confortável. A viagem terminou.

Nota 3: o mundo podia ser todo aquele em que viste este animal. Essa pessoa próxima vista como um animal. Agora imagina que esse mundo que viste, animal, e’ o real. Ou talvez seja so’ outro possível, outro simulacro.

O autocarro da noite

(continuação, mais pobre, do acreditar na noite, escrito numa outra insonia na noite chinesa, um tema e pergunta fundamental desta viagem: que trazemos no's da noite? que leva'mos no's deste dia para a noite? na noite nada permanece: se nao permaneco, que sou eu senao esse nao permanecer?)


O autocarro da noite entra pela noite dentro. Entra-se no autocarro ao final da tarde. Sai-se do autocarro pela manha da vida. A saída e’ de um mundo, a entrada noutro, e pelo meio, a viagem de autocarro.

A viagem de autocarro e’ uma viagem pelo vazio, pelo caos. Na china, entra-se num ponto desconhecido e, na china, sai-se noutro desconhecido.

Durante a viagem pela noite o autocarro passa territórios escuros e abana. As convicções não ficam. Durante a noite há o medo, há a desconfiança e deve-se estar preparado para morrer. Como na insónia e no acreditar na noite. E' mesmo preciso acreditar na noite!

De manha o mundo começa outra vez e temos de nos refazer de tudo. Como quem começa de novo. Pela noite dentro que levamos no's da noite? Que trazemos no's da noite? Que fazemos no's da noite? Que leva'mos no's deste dia para a noite? O autocarro da noite abana, convicções e não deixa dormir. Tens de estar preparado!

02 October 2010

Funeral oration for a passport (me, my body, and my identities)

Dear (not so) old passport, I never really liked you.
They look at you
and call me Ramos
They stamp your pages
and let me pass…

Borders they say! They have big pieces of cloth they call flags and they say they are proud of. They are proud of being born in a specific piece of land and not another. They call these places countries. They call me “Portuguese!” because I was born in a place and not another.

When I was born, they wrote Ramos on you to keep track of my body. They call it a legal identity: I am you and I am my body. And Ramos they call to all these things.

They do the same to themselves! They make signs in papers to make believe the papers represent their bodies. They even believe their bodies represent themselves!

But after those so many borders and papers and stamps, my dear, I see just more men. All the same eyes, mouth and feet, and all with the same gaze, looking for food and shelter.

Sometime in the future they will call Ramos to the court, you, my body and me. But well, I like to use you to travel, and pretend I am that Portuguese Ramos they say I am. You and me together! But when they call this Ramos, my dear, I will refuse, I will tell them the truth about you and I. I will tell them I am no Ramos. I am not the entity they say you represent. I am no paper or classification. I am no you!

I may accept I am this body today, but I will never accept that I am you. I will always refuse to understand the reason of your existence.

My dear passport, I hope you rest in peace!

24 August 2010

Ser Viajante

Alguem perguntou o que era viajar e pediu um video com a resposta, e como este blog esta cheio de entradas serias sobre o assunto, resolvi brincar. E' que se ha diferenca entre o eu que voces conhecem e o eu que viaja e' que o viajante sorri e brinca muito mais.




Ser viajante é ser mais alto, é ser maior do que os homens!
É ter de mil lugares o esplendor
E não saber sequer onde e' que se vai!
É ter cá dentro uns trocos para o proximo autocarro.

E é viajar, assim, perdidamente...
Com poesia de Portugal em mim
E dizê-lo sorrindo a toda a gente!

A forca dos meus sonhos (com e sem cedilha)

Por a cedilha (da forca) entre parenteses, como quem rouba na praia e atira para o mar:


Apesar das ruínas e da morte,
Onde sempre acabou cada ilusão,
A forca dos meus sonhos é tão forte,
Que de tudo renasce a exaltação
E nunca as minhas mãos ficam vazias.
(Sophia)

20 June 2010

Acreditar na Noite

Um dia e' uma vida; a entrada na noite, a morte. Tudo se fez claro naquele momento escuro em que tentei o suicídio. E por sorte,  num instante, entendi que não o devia fazer. E sempre aquela naturalidade com que todos aceitamos a morte diariamente.

Estava deitado numa cama de quarto escuro e corpo quase nu. Fechei os olhos e deixei de pensar no meu corpo, no onde ele estava e aos poucos fui perdendo consciência e entrando naquele espaço de ventos coloridos em que passam filmes mudos. Acreditei que as técnicas que aplicava resultavam ao ponto de quase morrer. O filme que passava chamava-se "a ascensão". Mas numa cena menos forte, ouvi o ruído de gente que festejava e entrei no vórtice de regresso. Há primeiro o ouvir o ruído, depois o entender o ruído, depois o entender que se entendeu o ruído, como quem se vê ao espelho, e depois o sentir e entender o corpo pousado na cama e o frio da janela de onde vem o ruído de gente que festeja. Salvaram-me a vida em festa!

Depois tentei outra vez adormecer e concentrei-me no peso que sentia nas sobrancelhas. O sono caia e já não senti o corpo. A zona dos ventos mudos apareceu mas houve uma ansiedade que me fez mover o olho. Havia ainda vida em mim. E porque queria eu dormir? Porque' o suicídio? Insónia e' vida! Levanto-me e vejo que me resta pouco tempo agora, talvez uma hora de vida. Todos dormem e eu devo dormir, a morte chegara moralmente portanto. O nervosismo da-me insónia, tempo de vida.

Acreditar na noite e' como acreditar na reincarnacao. E' acreditar num despertar. Porque acredito que ontem me deitei e adormeci? Porque acredito eu na minha memoria? Porque acredito eu que sou eu quem viveu meu passado? Acreditar na memoria e' acreditar no tempo linear em que ela se constroi. (essa e' a tua grande doenca leitor! acreditares que ontem estiveste aqui e adormeceste? que provas tens?) E' preciso deixar de acreditar na memoria para entender o tempo. E' preciso deixar de acreditar que adormecemos ontem. E' talvez preciso deixar de acreditar, pelo menos, que fomos nos, os mesmos deste agora/aqui, que adormecemos ontem.

E por ai chegamos a' noite da morte. Adormecer e' morrer. E portanto, esquecer o presente imediato, estes últimos 5 minutos, e' morrer! Deixar que a cena mude, no filme, e' morrer. Como se fossemos o personagem que só vive na própria cena. Depois da cena, a morte. Ao adormecer morremos ali e, no dia seguinte, há apenas reincarnacao, já num outro tempo, de alguma coisa repetida de nos, mas outro nos, outro eu. Tentar adormecer em noite de insónia e' uma tentativa de suicídio. A morte deve ser natural!


Quatro perguntas para acreditar na noite


porque acreditas tu
que es tu
quem viveu teu passado?

18 June 2010

Buda em Pânico

Nota: o blog estava a ficar cheio de entradas descritivas e ainda não me apetece escrever sobre americanos obesos. Podemos sempre fingir que estou a atravessar o pacifico num cargueiro, tempo propicio a' reflexao, ao tal virar-me para dentro. Portanto, resolvi verter um pouco do meu diário para aqui.

o pânico de que a viagem se acabe. E de seguida esta vontade de voltar para trás, de refazer tudo de novo. Não repetir, mas diferir refazendo. Sentir o novo sempre. Como aqui uma obsessão. Querer voltar aqueles momentos e repeti-los. Quero sorrir sempre como sorri quando me apaixonei ou cheguei ao fim da linha da noite e havia uma praia de lua cheia com gente ah minha volta que dançava a rir. Ou então o primeiro dia de escola! Aquele dia. Porque e' sempre aquele que quero. Nunca um qualquer. O indefinido, o "um pé descalço na areia" não serve neste pânico. Não serve um pé descalço. Só serve aquele teu pé descalço de Alentejo ou aquele meu pé descalço de sargaço.

E depois acalmo. Transformo de alguma forma esse aquele num indefinido um. Aquele pé descalço torna-se um pé descalço. E portanto alcancavel, repetivel. Mas se a ansiedade passou, sigo caminho a correr, em busca do próximo presente de pé descalço. Da próxima duração. Do próximo aperto, contracção de músculo e tempo.

E se digo isto e' por estar em êxtase, talvez como uma droga, uma viagem da qual não se quer sair e ao mesmo tempo já um pânico de dependência. Há, em cada um dos dias que correm por estes dias, uma duração, um acordar a meio, um olhar da consciência, em que (como se estivera no memento), nem preciso de saber do passado, ou do que estava a fazer ou pensar, em que basta aquele próprio momento . E e' tão real que todos os que se cruzam por mim tem só um adjectivo: sorridente. E' isto certamente o Nirvana. Mas este não me dura para sempre. Buda em pânico porque o Nirvana não lhe dura todas as suas duracoes.

E aqui a mais antiga de todas as minha licoes: um homem nunca resolvera todos os seus problemas, porque a pilha dos problemas e' infinita. Amigo, por debaixo do teu mais profundo e doloroso problema ha' sempre um outro que te atormentara! Não te preocupes demasiado em resolve-los. Escolhe uma boa tormenta e antes aprende a conviver com ela. E' que esta tormenta de Buda em pânico não me parece nada mal!

Digam la' que nao se nota o panico :-)

viajar vibrar mimar fingir existir

Em viagem passamos no inicio de momentos de vibração lenta para momentos extremos de sensibilidade. Mas isto só com os meses se vê. Em viagem, a aceleração e' lenta mas a velocidade no final e' limite. Com os quilómetros o corpo fica mole e vibra a tudo. Aceitar o mundo e' estar em sintonia com ele. A tudo reajo com forca de sincronia. Ao riso, rio mais forte e sinto o Riso forte e ultimo, ao choro que vejo, trago lágrimas mais acidas, que dobram o corpo. E e' tudo Tao intenso que chega ao ponto de doer. E depois há ainda muitos outros pontos. Mas o ponto ultimo, e' o ponto teatro (Nietzsche). E' quando me vejo a mimar o mundo, com quem estou em sintonia, que me apercebo de que estou aqui.

Viajar e' também esquecer-me de mim, descentrar. Só no final da intensidade surge o eu outra vez porque se vê nada, como uma emergência. A consciência nasce no momento em que podia o corpo seguir em sintonia com o mundo, mimando-o para sempre (Bergson). Mas no momento da intensidade máxima, no limite. E' no exagero que a consciência volta e me diz que eu sou, individuo, e que devo continuar a existir. E' o corpo que impede o desfazer-me em mundo, agua de balde que não se deixa espalhar no solo.

Tempo Memento

O tempo e' o assunto mais dificil da filosofia. Filosofar e' simplesmente atirar o entendimento que temos das coisas para o lado e dar um passo em frente, seja em que direccao for. E filosofar o tempo e' quase impossivel! Um dos atalhos para filosofar o tempo e' comecar pela memoria. Mas para filosofar a memoria e' preciso filosofar tudo. Filosofar a memoria arrasta a filosofia toda. Mas nao deixa de ser mais facil do que o tempo.

Depois de ler Bergson e Deleuze (e deixando Heidegger na lista dos "a ler" ha ja anos), o tempo nao muda muito de forma. Como se aquelas palavras nao fossem compreensiveis: evento, duracao, presente passado, series e sinteses do tempo, memoria pura. Dificil, muito dificil.

MAS, bastou meio filme para que tudo encaixasse, nao de forma clara, mas de forma definitiva. Memento e' um filme americano, e portanto, de accao. Mas e' de tal forma interessante que ate consigo ignorar o desnecessario. Memento deixa uma impressao forte e simples: uma linha de fuga no pensar o tempo.
Memento e' um filme sobre memoria. E leva-nos tambem para problemas de identidade, individualidade e etica. Mas o que tem de mais brutal e' aquilo que faz a' nossa concepcao do tempo.
Depois de ver memento ja nao ha relogios ou calendarios que nos valham e podemos ai, bem antes da aparicao do problema etico que a cena final nos atira, pensar o tempo de novo. Pensar o tempo antes da etica!
E' um filme que me vai fazer pensar durante meses...

17 June 2010

Ler/viajar, viver/mastigar

Viajar com livros na memoria e' potenciar uma viagem. A Índia do Kipling e do Tagore, a Sudamerica das Venas Abiertas, do Vargas Llosa ou do Sepulveda, o Shanghai do Malraux... e, para alem da musica, a terra das imagens também, o Japao do Ozu (e do Andando), a Índia do Apu, o Brasil das Aspirinas e Urubus, e claro, e' aqui nos Estados Unidos que faço uso dos, de outra forma inúteis, tantos filmes Americanos que vi. As referencias multiplicam-se a cada momento. Mas os livros são o que mais enriquecem uma viagem. E são muito poucas as letras que trago. Isto enquadra-se na minha aprendizagem de viagem: os livros, a bicicleta, o navio, o couchsurfing, a boleia, o sorriso, etc. Viajar e' aprender a viajar, como viver e' aprender a viver.


Mas a verdade e' que nunca gostei de ler! O corpo queixa-se e quer sempre mexer-se, usar-se. E o cérebro pede mais tempo de letras. Ler sempre foi como mastigar uma iguaria, quando desfazemos o bife com os dentes já sentimos aos poucos o seu sabor, mas ainda nao ha prazer senao numa esperanca (como a esperanca no Sol ou amor de amanha). Mas os livros sabem a papel, e ler sabe a mastigar papel. Nao fosse a esperanca, queimava-os ja'! Mas e' no engolir, o sempre grande momento de virar a ultima pagina de um livro, e no digerir que esta' o prazer do garfo. O que vale também são aqueles momentos de memo'ria em que nos lembramos do que comemos, em que se abre o apetite para mais. O lembrar o que já se comeu e sonhar com mais. A paixão pelo "já ter lido", Ah, o viajar pelos livros que já li! Ah, as memorias das letras, e portanto, a fome de letras como quem conversa sobre francesinhas depois de uma tarde sem comer.

Viajar e' o oposto destas letras/comida, as fotos de viagem valem tão pouco... O viajar faz-se precisamente na "leitura", no mastigar, no evento. Viajar e' sentir o vento na cara e nunca recordar a pele e o vento. O melhor do viajar e' aquele sentir das letras a passar diante dos olhos. Tomara eu saber pousar os olhos no livro como quem lança os pés descalços ao caminho!

28 May 2010

Adeus ó Esteves!

Aos anos que eu nao relia a Tabacaria!
Qual Camoes, triste Camoes! Vai desaparecer o Portugues e o Portugal do Camoes e vai ficar so Pessoa (sem artigo antes!). Nem ele propriamente ficara, ficara so aquela "pessoa" e suas vozes: os seus ecos!
E por outro lado, portugues que e' portugues sabe a Tabacaria de cor! (a descapitalizacao do p e capitalizacao do T nao e' um detalhe).

"Ah, conheço-o; é o Esteves sem metafísica.
(O Dono da Tabacaria chegou à porta.)
Como por um instinto divino o Esteves voltou-se e viu-me.
Acenou-me adeus, gritei-lhe Adeus ó Esteves!, e o universo
Reconstruiu-se-me sem ideal nem esperança, e o Dono da Tabacaria sorriu."

A palavra mais interessante desta parte do poema e' "gritei-lhe"! Como e' que e' possi'vel esta persona, a que fala no poema, gritar? Este grito e' de uma violencia incrivel Ele nao e' nada mas grita? O grito e' tao forte que recconstroi universos!

20 May 2010

Zizek

I never had the time to follow Zizek, the popular philosopher, but today I got him talking about Deleuze. He is not as interesting as a master but, well, it's a journal and he's really funny! It may also interest you :-)

10 May 2010

Safar-me

"the word for journey or travel is the same ("Safar") in Arabic, Farsi, Urdu, Hindi and Swahili"

safar
. Tirar para fora; extrair.
. Mar. Pôr a navegar (um navio encalhado).
. Apagar.

Assim me tiro, me apago, me ponho a navegar. Assim me safo. Assim me safaro. Assim viajo. Assim faco a minha jornada. Assim travelo, assim me travelo. Um grande travelanço que e' um lanço atravelado. E o velho esquema do "izamento em azamentos": assafarizo-me em atravelamentos.

06 May 2010

Pessanha

E na China Macau ha o Pessanha! Esse professor de "Filosofia Elementar" que levava a sua Clepsidra na memoria e a dava aos amigos serao adentro! E todas as noites, uma nova clepsidra, mudada de ontem aqui e ali. E as virgulas? Onde vao as virgulas neste ar que te sopro?

http://paginas.fe.up.pt/~mei04021/poetry/pessanha.php

30 April 2010

pt n e' pais para mim jovem!

E nao e' por ser Portugal (sosseguem os fanaticos)! E' so' por ser o MEU pais. Nos tempos que correm estar em casa e' um desperdicio de tempo, se temos logo ali a rua, a marginal, a estrada nacional e a fronteira! A casa e' boa, certo!, mas o sol esta a raiar la fora!

Isto tambem porque surgiu uma vontade enorme de comecar a mandar CVs aqui na China...

(ver comentarios, lol)

29 April 2010

Why I do it

When you ask "when are you coming back?", I have no other answer than "you have a problem with 'time'".
But when you ask "why you do it?", then I can show you some examples:

This is the most important picture of the year. Randomly found on the internet some months ago, it's the Pamir Highway in Tajikistan. It's a picture of what I call "home" as I find myself lost on a dirt road. It's also an intercessor (Deleuze) as it's the main reason for this trip: a dirt road where the body shakes and the soul freezes as the gravel passes.

27 April 2010

O sangue de Dioniso e as veias organicas de Apolo

Algures em 2004, no centro comercial Fonte Nova em Lisboa, num belo domingo de ressaca com cocacola e aqueles mini calzones maravilhosos, eu disse EUREKA. Na altura buscava uma formula, a formula da arte, ou a formula da vida. E disse que queria uma obra ou vida que "emocionasse interessantemente".
Mais tarde descobri essa formula nas fotografias de Barthes e no seu Punctum (emocao) e Studium (interesse). Mas isto era ainda so arte: a estetica. Em Nietzsche a estetica vive na etica e vice versa.
Quero hoje celebrar uma nova formula com eles. Que e' uma evolucao da primeira: "Filosofia... Em suma, trata-se de fazer um pouco do sangue de Dionisio correr nas veias organicas de Apolo", Deleuze.
E ha Deleuze que nao se contenta com isso e continua depois destruindo estas veias organicas de Apolo e ate esse sangue Dionisiaco. Com novas formas...

Varanasi I

Havia naquele tempo um patio de terra batida e se subissemos as escadas estreitas de degraus altos chegavamos ao terraco. Brincavamos. O sol intenso secava a agua que saia do balde em voo ate ao solo. E nesse voo cortado, nesses raios de sol, havia ja o embate com a pedra do chao e - com os nossos pe's - tal como eu, queimado por aquele sol, levava ja toda aquela guerra.

Tinha um peao e corda enrolada. Nos dedos encostava a carica da ponta da corda. Puxei o braco para tras e depois para baixo. Senti, na pele das costas queimadas, a agua em voo. E gotas nas canelas. O peao lancado na agua em rodopios escaldantes.

Ardia tudo ali e descemos. A tia estava no quarto de cimento sem moveis. Lavava a roupa de linho. Os meus pes da pedra do terraco para a terra do patio. Estava ja ali todo o meu toque, o meu corpo de pele aberta a's temperaturas. Estavam ja ali as aventuras.