06 October 2010

Impressões da primeira meia hora em New York

E’ sempre maravilhoso chegar a uma grande cidade do mundo. Antes Tokyo, agora New York. Algo em comum, uma chegada tarde e sem plano algum. Sem mapas. Sem ideias. So’ uma cidade gigante e muito imaginário. No avião já se ouve o sotaque nova-iorquino cheio de energia a falar dos seus produtos e negócios. A’ saída logo um senhor de 70 anos de smoking impecável, pronto para entrar numa festa de gala ou limousine.

No comboio aéreo entre terminais passo no parque de estacionamento e vejo limousines a perder de conta. Começo a cantarolar “New York, New York”. E as memórias começam a aparecer. O livro This Side of Paradise (Fitzgerald) vai ajudar. A Nova Iorque vem-se de smoking! Times Square/Central Park, não e’?  A estátua da liberdade, o empire state building e as twin towers. Nada disso: New York e’ o MOMA e o MET! E que mais! O comboio das 23h entra pela cidade a dentro e as referências multiplicam-se com a inspiração: aqueles bonés NY aqui são locais.

E’ a capital? Não. E’ a maior do mundo? Não. E’ provavelmente a mais rica cidade do mundo? Arriscaria que e’ a cidade com mais milionários. Não são um ou dois shakes que são pentamilionarios. Não, e’ uma cidade de milionários, Nova Iorque tem milhares de milionários!

02 October 2010

Funeral oration for a passport (me, my body, and my identities)

Dear (not so) old passport, I never really liked you.
They look at you
and call me Ramos
They stamp your pages
and let me pass…

Borders they say! They have big pieces of cloth they call flags and they say they are proud of. They are proud of being born in a specific piece of land and not another. They call these places countries. They call me “Portuguese!” because I was born in a place and not another.

When I was born, they wrote Ramos on you to keep track of my body. They call it a legal identity: I am you and I am my body. And Ramos they call to all these things.

They do the same to themselves! They make signs in papers to make believe the papers represent their bodies. They even believe their bodies represent themselves!

But after those so many borders and papers and stamps, my dear, I see just more men. All the same eyes, mouth and feet, and all with the same gaze, looking for food and shelter.

Sometime in the future they will call Ramos to the court, you, my body and me. But well, I like to use you to travel, and pretend I am that Portuguese Ramos they say I am. You and me together! But when they call this Ramos, my dear, I will refuse, I will tell them the truth about you and I. I will tell them I am no Ramos. I am not the entity they say you represent. I am no paper or classification. I am no you!

I may accept I am this body today, but I will never accept that I am you. I will always refuse to understand the reason of your existence.

My dear passport, I hope you rest in peace!

27 September 2010

Dia 195, Londres, dia de permanecer

No dia 195, em Londres, há’ formigas no tubo, o metro, estreito. As linhas assustadas traçadas pelos olhares, o bambolear da carruagem, o aviso no microfone em voz mecânica, inglês pois. A escada rolante ate’, leva ela também um certo cinzento. Estamos no inicio de Setembro, esta’ a chover, merda. E’ escusado continuar a contar os dias do verão. Já chegou o Outono, já não há viagem, ou surpresa. Há’ só’ comboios para sítios onde tenho de fazer coisas. E’ escusado continuar a sonhar com o ar puro ou agua do mar. E’ Outono!

O dia 195 e’ o dia de parar a contagem, viagem. E’ dia de parar de sentir. E’ dia de parar de sonhar, parar. Parar de ir, sorrir. E’ Outono. E’ dia de obedecer, dia de permanecer. E a gota que corre pelo vidro da janela do comboio, escorre também pela minha cara.

No dia 195, permanecendo, a própria tristeza e’ mais banal, como no dia em que falta um ano inteiro para o Carnaval:

08 September 2010

A volta ao mundo em (cento e) 80 (e oito) dias

Há pouco mais de 6 meses sai de casa, a mochila tinha 5 t-shirts, 5 livros, uns calções e pouco mais. Os sapatos iam nos pés e mais nada. Se o pensar pesasse (trouxe tanta coisa de casa para a viagem e agora volto com tanto mais que) um cargueiro não chegaria para tanta intensidade (sem esquecer que o peso de um poema e’ inverso a’ duração do seu fôlego).

Foi uma viagem excepcional! Uma viagem muito maior e mais interessante do que o que pensava ser possível. Uma viagem que não tinha plano mas que tinha aspirações. Aspirações a’ inspiração, a’ diferença. Uma viagem que pretendia mudar a minha vida, que pretendia mudar-me a mim, que pretendia atirar-me mais adiante. E assim o fez (processos maioritariamente não representados neste blog). Foi uma viagem com um pouco de tudo, mas foi acima de tudo, uma viagem BOA . As incontáveis memórias misturam-se com o que mudou em mim: uma enormidade. O mundo como máquina de moldar homens.

As etapas
Primeiro veio a paz, o deixar o stress de 2 anos de trabalho intenso sair pelos poros... no Egipto. Depois veio a inspiração do médio oriente. Nem sei porque pus este passo no caminho para a China. Um grande golpe de sorte atira-me para uma região do mundo incomparavelmente fascinante: Palestina, Síria e Líbano estão agora no top dos meus países favoritos para viajar. Sempre que alguém pede recomendações eu sugiro: médio oriente! Para os mais medricas, ao menos a Síria!

Depois veio a concretização de dois objectivos que foram crescendo no médio oriente, viajar de bicicleta e conhecer a China, esse exotismo máximo. Um mês de descoberta da China encheu-me de vontade de para lá ir viver. E, como se não bastasse, uma semana no Japão representou uma cereja em cima deste bolo exótico, que grande surpresa este Japão singular.

A terceira etapa da viagem, os Estados Unidos, apareceu com um objectivo utilitário: será que eu vou gostar? Será que e’ um pais onde poderei viver? Ou será um país para esquecer? Aos 30 anos e depois de ter viajado tanto, já não podia deixar estas questões por responder. No entanto, a passagem relativamente rápida para o México funcionou como um escape de um mundo que me desagradou. Talvez mais tarde…

Depois de 4 meses exóticos cheios da tão desejada diferença, as férias com a M na América Central foram puro gozo, a descoberta de um continente pequeno (do tamanho de Franca) e de uma realidade político-social muito triste: umas férias maravilhosas!





Depois da viagem
Há já vontade de voltar… a’ viagem claro! As minhas viagens são sempre rápidas. Nunca fico muito tempo num só sítio. Há vontade de voltar rápido ao médio oriente, acrescentar o Irão que ficou por pouco de fora. Há muita vontade de voltar a’ China onde quero viver, e também ao Japão cujos 7 dias que la’ passei souberam a muito pouco.

Talvez tenha sido a viagem da minha vida. Ou talvez não, a melhor viagem e’ sempre a iminente. Ou talvez não. A viagem da minha vida vai ser uma viagem que farei quando me reformar: sair de casa de bicicleta e chegar com ela a’ cidade do cabo, ou ao sri lanka, ou a Beijing (vou ter tempo para planear). Aos 30 passo pelo mundo rápido como quem diz olá e ate’ breve, aos 60 viajarei lento como quem passa para dizer adeus.

Ou então, daqui a dois ou 3 anos há mais! Começando na China, no inicio do Verão (2013) parto em direcção a’ Ásia Central e, sem voar, cruzo para o Irão onde poderei voltar a’ tão querida Síria. Depois de rever a Palestina e o Egipto, partirei numa viagem em direcção a sul por essa África adentro…
Pensavam que isto tinha um fim, não e’? Ate que eu morra, a realidade precisa de mim.

The 188 nights and 77 beds

A list of the 77 beds I slept in in the last 6 month, including 15 new countries for me (I didn’t count the beds exactly):

BELGIUM BRUSSELS EGYPT CAIRO   DAHAB   SINAI   NUWEIBA JORDAN WADI RUM   PETRA   AMMAN ISRAEL JERUSALEM   TEL AVIV SYRIA DAMASCUS LEBANON BEIRUT SYRIA DAMASCUS   PALMYRA   ALEPPO TURKEY ANTEP   ISTAMBUL   BODRUM   OLYMPUS   ISTAMBUL THAILAND BANGKOK LAOS VIENTIANE   VANG VIENG   L. PRABANG   NORTH LAOS CHINA YUNAN   GUILIN   YANGSHUO   MACAU   HONG KONG   SHANGHAI   BEIJING JAPAN TOKYO   KYOTO USA SEATTLE   SAN FRAN   LA MEXICO BAJA CALIF   MAZATLAN   GUADALAJARA   DF   SAN CRISTOBAL GUATEMALA TILAPA, XELA   ATITLAN   ANTIGUA HONDURAS COPAN, CEIBA   UTILA   SAMBO CREEK NICARAGUA MANAGUA   GRANADA   S. JUAN DEL SUR   OMETEPE   LEON EL SALVADOR EL TUNCO GUATEMALA RIO DULCE   LIVINGSTON BELIZE HOPKINS   CAYE CAULKER MEXICO CHETUMAL   TULUM   COZUMEL   PALENQUE   DF USA NYC UK LONDON

Grabete (o preço da brincadeira)

Para quem esta' a pensar fazer algo do género, estes números podem ajudar: foi uma volta ao mundo de 188 dias que custou (quase) 8000eur mais 1800eur para as viagens de avião (compradas adhoc conforme fui querendo, sempre one-way, e sempre direcção Oriente).

Os três factores mais importantes na estimativa de custos são (1) o preço das coisas no país de destino, (2) a velocidade (relativa ao tempo que se fica num dado local) e (3) viajar sozinho ou em grupo. Sendo que viajar sozinho e’ 20/40% mais caro que viajar a dois e quanto mais rápido se viaja mais cara fica a viagem.

Neste caso, a minha viagem foi quase toda solitária e muito rápida (e’ normal viagens a’ volta do mundo de um ano terem menos paragens que esta de 6 meses) o que atirou o custo médio para 42eur por dia. Este valor depende claro dos níveis bem diferentes dos preços nos locais visitados. Definindo, por exemplo, 3 grupos:
- destinos caros, USA e Japão: 70/80eur por dia
- destinos de custo médio: Israel, Jordânia, Turquia, México e cidades da China - 40/50eur por dia
- destinos baratos: Egipto, Síria, Laos, Sul da China, América Central - 20/30eur por dia

Deixo um resumo do trajecto e respectivos custos:



06 September 2010

Amérdica

Os dois últimos mexicanos que representam muito do que vi e senti nesta Amérdica do norte e centro.

O recepcionista
As histórias de cruzar o deserto para o outro lado (estados unidos) repetem-se. Aos 17 anos foi com um tio pelo deserto, 4 dias, 2 dos quais sem comida e com pouca água, la chegaram ao pais do dinheiro. Ai fez o secundário, e começou a trabalhar, um pouco de tudo, construção civil, pintura, lojas e um filho que agora tem 2 anos. Um dia regressava do trabalho em Nova Iorque, um carro segue-o, manda-o parar, mostram a identificação da policia. “Legal or illegal?” “Illegal sir” “Me dieran la ?fenolia?” “Es el peor que te poden dar”. Aos 23 anos chega deportado ao seu México, vai para a grande Cidade do México. E’ o recepcionista do hostel no centro histórico e oferece marijuana de fumar aos seus convidados americanos que lhe dizem revoltados: “Why the fuck you want go back to my stupid country? People are stupid there man!”. “Me gusta la diferencia y bueno…” (o polegar e o indicador dizem dinheiro). Este rapaz usa um tom de voz inocente e humilde, dizia que queria aprender português e pedia-me conselhos para como estudar. Há rapazes com cara de bonzinhos, que querem conhecer as coisas curiosamente e viver uma vida boa. Mas o mundo em que nasceram, muitas vezes, não os deixa.

O homem que cheirava cola
O último mexicano que me disse algo tinha as calcas rotas e parecia que me queria roubar. Olhou para mim e pôs a mão dentro das calcas de ganga sujas e largas. Dai, bem do centro na frente, sacou uma lata amarela, verteu um pouco numa das mãos e encostou de imediato a mão a’ boca, inspirando. Teria uns 35 anos e parecia cansado, baixou a cabeça sobre o suporte de metal. Estamos no metro da Cidade do México a caminho do aeroporto, a deixar para trás este continente.

O meu espanhol
Havia um objectivo mais ou menos fácil de atingir nesta norte/centro América: falar unicamente espanhol durante 2 meses (evitar o inglês nem sempre e’ fácil com tanto gringo a passear por aqui) e fazer o meu espanhol saltar de intermediate/fluente para expert/muito fluente. As últimas palavras que ouvi dizer em espanhol aqui foram “Usted habla muy bien espanol! Buen viaje!”. Fiquei contente. Os caminhos da aprendizagem de línguas são muito árduos (para mim, ao me nos), cheios de frustrações: o espanhol e’ fantástico por ser tão fácil.
Hasta la vista Amérdica...

Um americano e’ uma coisa sorridente, ele não tem culpa!

Um americano diz a voz alta quando brindamos na mesa do hostel: “Great! All different countries here: France, New Zealand, Australia, Portugal, L.A., Belgium” (LA e’ Los Angeles, uma cidade do estado de Califórnia nos Estados Unidos). Ele não disse isto como piada, e ate’ e’ algo que muitos americanos fariam (e’ fácil imaginar um nova-iorquino a dizer o mesmo). Que hei-de eu pensar desta curiosíssima situação?

Um americano e’ uma coisa sorridente, ele não tem culpa! Um americano viu televisão (ou youtube) a mais, sorriu e na escola aprendeu a sorrir mais com competência, a vender. Um americano aprende a ser bem sucedido: ser famoso, ter dinheiro. Um americano aprende a cantar USA e a gostar e defender a bandeira.

Um americano concorda que chamar “comunista” a outro americano e’ um insulto. Conheci um que era antigo membro do partido comunista americano (sim, existe!). E uma das primeiras coisas que vi em Seattle, a primeira cidade que visitei nos Estados Unidos nesta viagem, foi uma estátua bem grande do Lenine (sim, e’ incrível!).

Um americano não tem culpa que um americano não goste dele. E’ que um americano gosta dele! O que um americano não gosta num americano e’ o seu ser americano, tudo o resto e’ tão maravilhoso como outro ser humano qualquer. Sem mudar de exemplo, o mesmo personagem que brindou a’ sua nacionalidade de Los Angeles e’ um jovem interessante de 30 anos que deixou a sua carreira de contabilista para viajar de mota pela América Latina e descobrir a sua vocação, ser artista!

Um americano gosta do exército. Ele tem uma metralhadora e passeia nos halls do maior aeroporto do mundo de camuflado castanho claro. Um em cada 200 americanos estiveram no Iraque a matar Árabes (ainda não conheci 200 americanos mas já conheci 3 que estiveram no Iraque a matar árabes). Ou será antes a América, e não o ser americano dos americanos, que um americano não gosta? Nada disso! Nada contra a América ou os americanos! At all! O problema e’ a América simulacro, simulacro do que realmente um americano não gosta, simulacro império dominador, simulacro capital de negociante. O braço mais forte, o meu braço direito, mete-me nojo. O (corpo) continente inteiro.

Um americano no Panamá teve o mesmo papel que um americano no Iraque. Alguém que manda lá não fez o que um americano mandou. “no problem”, manda vir um americano ( 1,5 milhões!) para limpar o assunto. Passados 7 anos, um americano (preto) diz: “ok, agora acho que agora eles conseguem entender-se”.

Se um americano (30 mil) regressar com problemas físicos ou psicológicos, e se outro (5 mil) morrer, “no problem”, foi pela pátria!? Que há-de um americano pensar disto? Alguma coisa esta’ errada? Onde estavam o Popper e o Russell quando escreveram aqueles livros que faziam um americano acreditar no caminho que se segue? Ah, já sei, estavam com medo das bombas atómicas e não podiam dizer outra coisa senão ser positivistas: coitados optimistas.

Um americano fala do fim da história. Qual historia? Esta, simples: “e a guerra continua", nada de novo em séculos e séculos. Se calhar ainda vou viver a terceira guerra mundial. Ou então a queda do império Americano. Enfim, há um país lindo que temos de visitar rápido, antes que seja tarde de mais: o Irão. Ouvi dizer que a grande pérsia (Irao) segue a grande mesopotâmia (Iraque)! E depois não haverá sequer arqueologia que os salve, vão ser so’ MacTablets, CuneiformKings e BigDarios!

Um americano, Pollock, quando era jovem:


01 September 2010

Moralidade Judaico.... cristã

Todos nós (portugueses) temos um pouco de moralidade judaico-cristã incutida em nos. Aquele princípio geral do não desperdício fundado no dever comer a comida toda, não a deixar no prato, ai pobrezinhos que morrem a' fome!

Tudo começou pela compra de uma pasta de dentes com um sabor bem mau, horrível, ou talvez nem tanto. Ao longo das semanas, aquele sabor mais ou menos mau foi habitando as nossas bocas. Algumas queixas esporádicas, mas nada mais.

No último dia das férias, fui lavar os dentes antes de me deitar, voltei, deitei-me na cama e disse:
- Sabes qual foi a pior coisa destas férias?
- SIM, a caganeira e vómito ao mesmo tempo - disse a M.
- Ah! Não, isso ate' e' giro para contar aos netos! O pior foi o sabor desta pasta de dentes! - disse eu.
- Tas a gozar, tu nunca deitarias a pasta de dentes fora! - disse a M.
E aqui começou a nossa divagação judaico-cristã. Porque raio não deitamos a pasta de dentes ao lixo logo no primeiro dia e compramos uma nova? Porque temos uma moralidade judaico-cristã impregnada! Não desperdices!

Bem, mas isto tudo só para falar de etimologia! E' que Judaico vem de Judeus e a M tem uma história bem melhor que esta!

No último dia do nosso curso de mergulho, em Utila (Honduras), fomos mergulhar com uns Israelitas (judeus portanto) muito simpáticos. No ultimo mergulho a M resolveu não mergulhar porque lhe doíam os ouvidos de tanta variação da pressão. Mesmo antes do mergulho a M falava com os seus amigos judeus que a aconselhavam quanto ao mergulho e a' dor de ouvidos. Ate que um deles se vira para o outro e diz algo em Hebreu (língua dos judeus cheia de ram ram's). Os dois partem-se a rir e o outro traduz "Even if you are not diving, you should go snorkelling with your tank, because you paid for it" (mesmo que não mergulhes devias nadar a' superfície com o teu tanque, já que o pagaste). Todos se riem e um deles diz "It's in our vains, we are jews" (está-nos nas veias, somos judeus).

Em pleno Caribe a M faz arqueologia da moral... do judaico ao cristão.

O verão das nossas vidas

40 dias depois ela sobe as escaditas do autocarro e senta-se. Mas eu tinha-lhe escolhido o lugar a' janela, alguém se tinha já sentado no 5 da janela e ela ficou só com o 6. Que podia eu fazer? Entrar por ali a dentro e dizer que a janela era para ela? Que raiva!

40 dias depois acabou o verão. O Outono que ai vem, seja ele qual for, da vontade de chorar. Que fazemos agora? Pensamos em como evitar o vento e a chuva que ai vem? Ou pensamos em como foi bom o verão? Tu memoriza-me tudo! Escreve! Que eu quero lembra-lo quando eles forem já grandes.

40 dias depois ainda quase não chorei e dói-me a cabeça das lágrimas acumuladas. Melhor e' dormir na cama vazia. Deve-se sempre dormir na diagonal quando falta alguém na cama. O que me vale e' este jogo de palavras que invento agora em pressas, para que, em velha artimanha, escorram as emoções pelos dedos fora.

40 dias depois acabou o verão das nossas vidas. E agora?

no hay nada mas dificil que vivir sin ti

Este blog e' um falhanço. Servira' talvez para me fazer lembrar no futuro o que senti. Mas para ti leitor, não haverá maior falhanço. Como te explico leitor o que me faz chorar ao ouvir esta musica no voltar a' Latino América, ao voltar a estes autocarros: saltitoes multicolores cruzando verduras abananadas. E o sistema de som que vale tanto como todo o autocarro e os hits do momento que se repetem interminavelmente:

no hay nada mas dificil que vivir sin ti
sufriendo en la espera de verte llegar
si no te hubieras ido yo era tan feliz

Viajar na América – Às armas, às armas!

Apesar dos Incas, Maias e Garifunas, a America Latina nao inspira como outras regioes exoticas do mundo. No entanto, a América Latina e', juntamente com o Sudeste Asiático, a mais bonita e divertida região do mundo e portanto, a melhor para férias: entre Bali e Belize venha o Deus e escolha! E sempre a oposição entre o bonito e divertido das ferias e a capacidade de inspirar, surpreender, ensinar e de nos mudar da viagem.


Voltar a’ América
Na viagem pela Sudamerica descobri os sangrentos descobrimentos e a sangrenta dominação. Ao recomeçar aqui a Centro América, tenho de pisar uma vez mais essa tecla e repetir esta melodia fúnebre: Somos filhos de assassinos!

A história da América
A história desta América e' demasiado triste! Primeiro os Espanhóis que chegam e matam. Depois os Americanos que ora controlam ora destabilizam as políticas para que as bananas cheguem baratas aos Estados Unidos. Uma terra de mortos, de pobres, de fracos que não podem fazer mais que sorrir. Sim, porque se nos somos filhos dos bravos assassinos, eles são filhos dos que souberam fugir, servir, obedecer e sorrir! Ah, os bravos Maias... jazem!
E não e' preciso ler as influenciadas Venas Abiertas, basta ler o guia turístico que, de uma forma mais simpática, não nega esta história lamentável. E a base dessa historia: as conquistas, os descobrimentos, tão orgulhosamente ensinados nas escolas Portuguesas. Era quem pintasse o monumento dos descobrimentos de vermelho sangue (a cor dos monumentos Maias) como uma mensagem para os Portugueses orgulhosos ou saudosos do seu passado de poder: "se queres mesmo os bons velhos tempos no teu país, amigo, compra armas!". Não ouves a canção que cantas com o Ronaldo?

A moral
Ao gritar "somos filhos de assassinos" queria também apontar numa direcção que me interessa bastante que e' a dinâmica das éticas. Interessa-me ver nesta história, contada a cores diferentes, um conjunto de alterações, um percurso, das morais associadas aos grupos. Apesar de agora condenarmos a matança e só se ouvir falar em Direitos Humanos, em tempos, havia quem levasse catana e corta-se mato e pescoço com o mesmo credo, e no final: estátua! Os direitos humanos e a estátua dos matadores de indígenas frente a frente. Ou o defensor dos fracos (coloque aqui qualquer imagem de filantropia) que grita antes do futebol "Às armas, às armas!". Enfim, um mar de naufrágios entre dinamismos morais e morais inconsistentes.

30 August 2010

A fadista do lago Titicaca

(oh pa, tinha outras coisas para contar mas esta historia e’ tão gira que a coloco ja’ aqui, fado e’ fado!)

Em dois anos de estrada e centenas de pessoas que conheci, so’ conheci um jovem DJ do Porto na Tailandia e um par de raparigas que passeava pela América do Sul. Nem mais um português!

Ela era gira e baixinha, tinha uma daquelas maquinas fotográficas grandes e tirava uma foto que me parecia espectacular. Seguia e coloquei-me ao lado dela, disparei também. Não falamos. Estavamos no Titicaca e a foto e’ a primeira deste post.

Voltamos ao barco que nos levava de volta a' vila central do lago. Sentei-me a ver a paisagem durante a travessia. Ela sentou-se ao lado de uma amiga e falavam as duas com um grupo de israelitas. O sotaque inglês era muito familiar… principalmente da amiga. Desconfiei. Passados uns minutos, elas começam a ensinar uma frase em português aos Israelitas… eu concentro-me na paisagem e sorrio.

A’ saída do barco sigo-os e, de repente, digo-lhe de bem perto com sotaque muito forte do porto (a frase que ensinavam aos israelitas): “O meu pai e’ jardineiro e eu nunca vi uma flor como tu!” e acrescentei “Cuarago!”. E ela diz a rir-se “Very well!!! It’s almost there!!!”.

No cimo da rua trocamos emails e passados 10 minutos elas tomaram um autocarro para outro ponto qualquer do pais. Houve ainda uma troca de emails para encontro em Buenos Aires, mas não se concretizou. Mas que interessava isso perante este típico e ao mesmo tempo excepcional encontro de viajantes? Nunca mais trocamos emails.

Passados 3 anos recebo vários emails de spam na minha caixa de correio e penso: “Quem e’ que esta Carmo, porra! Vou elimina-la da minha lista de contactos!”.
Antes de pesquisar no email e me lembrar da historia que acabo de contar, coloquei o email no facebook e o nome no google para ver se entendo quem era aquela pessoa. E’ o email da fadista que ate tinha um blog de viagem na altura. Agora tem vídeos no youtube e website (http://www.carminho.net/). Oucam o fado que e' lindo:


24 August 2010

Ser Viajante

Alguem perguntou o que era viajar e pediu um video com a resposta, e como este blog esta cheio de entradas serias sobre o assunto, resolvi brincar. E' que se ha diferenca entre o eu que voces conhecem e o eu que viaja e' que o viajante sorri e brinca muito mais.




Ser viajante é ser mais alto, é ser maior do que os homens!
É ter de mil lugares o esplendor
E não saber sequer onde e' que se vai!
É ter cá dentro uns trocos para o proximo autocarro.

E é viajar, assim, perdidamente...
Com poesia de Portugal em mim
E dizê-lo sorrindo a toda a gente!

A forca dos meus sonhos (com e sem cedilha)

Por a cedilha (da forca) entre parenteses, como quem rouba na praia e atira para o mar:


Apesar das ruínas e da morte,
Onde sempre acabou cada ilusão,
A forca dos meus sonhos é tão forte,
Que de tudo renasce a exaltação
E nunca as minhas mãos ficam vazias.
(Sophia)

10 August 2010

de ferias na America Central...

Andar sozinho de bicicleta entre o Laos e a China, sim senhor, as palavras sao viajar e aventura, nada contra! Agora, andar bem acompanhado entre ilhas das caraibas a fazer mergulho, as palavras sao mais ferias e boa vida! Que, alias, a grande maioria das pessoas pensa que e' o mesmo que viajar. Como este blog nao e' um blog de ferias, nao ha blog ate, pelo menos, 24 de Agosto (tambem porque viajando a dois nao ha tempo para pensar e escrever). E, infelizmente, nem sequer temos tirado grandes fotos...






















Um resumo rapido do trajecto. Fiz uma travessia do Mexico cheio de cultura e historia. Em Chiapas, no sul do Mexico, ja se sentia a chegada da Centro America. O Mexico nao e' America Central em nenhum aspecto. 

Cheguei a' fronteira entre o Norte e o Centro da America ja em boa companhia e fizemos uma semana na Guatemala (Pacifico, Atitlan e Antigua), uma semana nas Honduras (Copan e Utila) e uma semana na Nicaragua (Granada, Pacifico e Ometepe). Vamos agora passar por El Salvador e, antes do regresso (a' China?), vamos ao Belize!!!

20 June 2010

Acreditar na Noite

Um dia e' uma vida; a entrada na noite, a morte. Tudo se fez claro naquele momento escuro em que tentei o suicídio. E por sorte,  num instante, entendi que não o devia fazer. E sempre aquela naturalidade com que todos aceitamos a morte diariamente.

Estava deitado numa cama de quarto escuro e corpo quase nu. Fechei os olhos e deixei de pensar no meu corpo, no onde ele estava e aos poucos fui perdendo consciência e entrando naquele espaço de ventos coloridos em que passam filmes mudos. Acreditei que as técnicas que aplicava resultavam ao ponto de quase morrer. O filme que passava chamava-se "a ascensão". Mas numa cena menos forte, ouvi o ruído de gente que festejava e entrei no vórtice de regresso. Há primeiro o ouvir o ruído, depois o entender o ruído, depois o entender que se entendeu o ruído, como quem se vê ao espelho, e depois o sentir e entender o corpo pousado na cama e o frio da janela de onde vem o ruído de gente que festeja. Salvaram-me a vida em festa!

Depois tentei outra vez adormecer e concentrei-me no peso que sentia nas sobrancelhas. O sono caia e já não senti o corpo. A zona dos ventos mudos apareceu mas houve uma ansiedade que me fez mover o olho. Havia ainda vida em mim. E porque queria eu dormir? Porque' o suicídio? Insónia e' vida! Levanto-me e vejo que me resta pouco tempo agora, talvez uma hora de vida. Todos dormem e eu devo dormir, a morte chegara moralmente portanto. O nervosismo da-me insónia, tempo de vida.

Acreditar na noite e' como acreditar na reincarnacao. E' acreditar num despertar. Porque acredito que ontem me deitei e adormeci? Porque acredito eu na minha memoria? Porque acredito eu que sou eu quem viveu meu passado? Acreditar na memoria e' acreditar no tempo linear em que ela se constroi. (essa e' a tua grande doenca leitor! acreditares que ontem estiveste aqui e adormeceste? que provas tens?) E' preciso deixar de acreditar na memoria para entender o tempo. E' preciso deixar de acreditar que adormecemos ontem. E' talvez preciso deixar de acreditar, pelo menos, que fomos nos, os mesmos deste agora/aqui, que adormecemos ontem.

E por ai chegamos a' noite da morte. Adormecer e' morrer. E portanto, esquecer o presente imediato, estes últimos 5 minutos, e' morrer! Deixar que a cena mude, no filme, e' morrer. Como se fossemos o personagem que só vive na própria cena. Depois da cena, a morte. Ao adormecer morremos ali e, no dia seguinte, há apenas reincarnacao, já num outro tempo, de alguma coisa repetida de nos, mas outro nos, outro eu. Tentar adormecer em noite de insónia e' uma tentativa de suicídio. A morte deve ser natural!


Quatro perguntas para acreditar na noite


porque acreditas tu
que es tu
quem viveu teu passado?

19 June 2010

Uma semana de plástico - USA, Costa Oeste


Na fronteira dos States alguém me incomoda com uma entrevista. Querem saber onde vou, o que faço e, muito zangado, o pobre coitado, vendo o meu passaporte com foto de refugiado e quase completo de tanto carimbo, pergunta: "Why do you travel so much?".

19/6 Seattle
Em Seatle nasceram a Microsoft, a Boeing, a Starbucks e os Nirvana! Wow! Ao contrario de Chicago ou (I guess) Nova Iorque, este centro do mundo não tem nada de especial visualmente. No entanto ouve-se dizer numa esquina que o "Eddie Vedder lives next door, sometimes he plays on the balcony and we can hear him composing" (e' o vocalista dos Pearl Jam). E claro, estamos nos states, temos big cars, fake smiles, motels, diners, bandeiras, blues, burgers, wisky bars e muitas outras referencias dos filmes.

Vi em Seattle 3 ou 4 post its ou tshirts com o logo "Kill your TV", e' que americano vê 5 horas de televisão por dia. Ah, que grande democracia!

Quanto aos americanos... obesos!? 300 milhões de doentes mentais a tentar levar uma vida normal? Ou se calhar falei com demasiada gente da rua...

20/6 San Francisco
Em São Francisco fiz de turista e vi leões marinhos e parques agradáveis, mas...

22/6 Los Angeles, Hollywood
Um sitio muito especial feito de plástico...

23/6 California
Na Califórnia havia paisagens fantásticas para ver e, como são Americanas, são obviamente muito melhores que tudo o resto do mundo! Por exemplo, o Gran Canyon e' inultrapassavelmente impressionante! O facto de haver um canyon maior no México mesmo ali a baixo pouco interessa!.
Mas o que realmente senti nos states foi o que sinto quando vejo um filme de Hollywood: "Tirem-me daqui!" e assim cruzei fronteira para o México depois de uma semana de plástico.
E como não senti nada de muito positivo aqui, fico-me por este post.

24/6 Local Music
Ah, o melhor momento nos states: a Rocio leva-me da praia onde filmaram o Baywatch de volta ao meu hotel em Hollywood no seu jeep (um carrão gigante guiado por uma rapariga pequena). Nesses 45 minutos de viagem ouvimos musica local!!!!
Naturais da Costa Oeste, San Francisco. Uma das mais estranhas musicas locais que já ouvi em todo o mundo, por ser tão familiar e, por outro lado, só agora estar a ouvi-la na origem, só agora a compreendo:

 

18 June 2010

Buda em Pânico

Nota: o blog estava a ficar cheio de entradas descritivas e ainda não me apetece escrever sobre americanos obesos. Podemos sempre fingir que estou a atravessar o pacifico num cargueiro, tempo propicio a' reflexao, ao tal virar-me para dentro. Portanto, resolvi verter um pouco do meu diário para aqui.

o pânico de que a viagem se acabe. E de seguida esta vontade de voltar para trás, de refazer tudo de novo. Não repetir, mas diferir refazendo. Sentir o novo sempre. Como aqui uma obsessão. Querer voltar aqueles momentos e repeti-los. Quero sorrir sempre como sorri quando me apaixonei ou cheguei ao fim da linha da noite e havia uma praia de lua cheia com gente ah minha volta que dançava a rir. Ou então o primeiro dia de escola! Aquele dia. Porque e' sempre aquele que quero. Nunca um qualquer. O indefinido, o "um pé descalço na areia" não serve neste pânico. Não serve um pé descalço. Só serve aquele teu pé descalço de Alentejo ou aquele meu pé descalço de sargaço.

E depois acalmo. Transformo de alguma forma esse aquele num indefinido um. Aquele pé descalço torna-se um pé descalço. E portanto alcancavel, repetivel. Mas se a ansiedade passou, sigo caminho a correr, em busca do próximo presente de pé descalço. Da próxima duração. Do próximo aperto, contracção de músculo e tempo.

E se digo isto e' por estar em êxtase, talvez como uma droga, uma viagem da qual não se quer sair e ao mesmo tempo já um pânico de dependência. Há, em cada um dos dias que correm por estes dias, uma duração, um acordar a meio, um olhar da consciência, em que (como se estivera no memento), nem preciso de saber do passado, ou do que estava a fazer ou pensar, em que basta aquele próprio momento . E e' tão real que todos os que se cruzam por mim tem só um adjectivo: sorridente. E' isto certamente o Nirvana. Mas este não me dura para sempre. Buda em pânico porque o Nirvana não lhe dura todas as suas duracoes.

E aqui a mais antiga de todas as minha licoes: um homem nunca resolvera todos os seus problemas, porque a pilha dos problemas e' infinita. Amigo, por debaixo do teu mais profundo e doloroso problema ha' sempre um outro que te atormentara! Não te preocupes demasiado em resolve-los. Escolhe uma boa tormenta e antes aprende a conviver com ela. E' que esta tormenta de Buda em pânico não me parece nada mal!

Digam la' que nao se nota o panico :-)

viajar vibrar mimar fingir existir

Em viagem passamos no inicio de momentos de vibração lenta para momentos extremos de sensibilidade. Mas isto só com os meses se vê. Em viagem, a aceleração e' lenta mas a velocidade no final e' limite. Com os quilómetros o corpo fica mole e vibra a tudo. Aceitar o mundo e' estar em sintonia com ele. A tudo reajo com forca de sincronia. Ao riso, rio mais forte e sinto o Riso forte e ultimo, ao choro que vejo, trago lágrimas mais acidas, que dobram o corpo. E e' tudo Tao intenso que chega ao ponto de doer. E depois há ainda muitos outros pontos. Mas o ponto ultimo, e' o ponto teatro (Nietzsche). E' quando me vejo a mimar o mundo, com quem estou em sintonia, que me apercebo de que estou aqui.

Viajar e' também esquecer-me de mim, descentrar. Só no final da intensidade surge o eu outra vez porque se vê nada, como uma emergência. A consciência nasce no momento em que podia o corpo seguir em sintonia com o mundo, mimando-o para sempre (Bergson). Mas no momento da intensidade máxima, no limite. E' no exagero que a consciência volta e me diz que eu sou, individuo, e que devo continuar a existir. E' o corpo que impede o desfazer-me em mundo, agua de balde que não se deixa espalhar no solo.

Tempo Memento

O tempo e' o assunto mais dificil da filosofia. Filosofar e' simplesmente atirar o entendimento que temos das coisas para o lado e dar um passo em frente, seja em que direccao for. E filosofar o tempo e' quase impossivel! Um dos atalhos para filosofar o tempo e' comecar pela memoria. Mas para filosofar a memoria e' preciso filosofar tudo. Filosofar a memoria arrasta a filosofia toda. Mas nao deixa de ser mais facil do que o tempo.

Depois de ler Bergson e Deleuze (e deixando Heidegger na lista dos "a ler" ha ja anos), o tempo nao muda muito de forma. Como se aquelas palavras nao fossem compreensiveis: evento, duracao, presente passado, series e sinteses do tempo, memoria pura. Dificil, muito dificil.

MAS, bastou meio filme para que tudo encaixasse, nao de forma clara, mas de forma definitiva. Memento e' um filme americano, e portanto, de accao. Mas e' de tal forma interessante que ate consigo ignorar o desnecessario. Memento deixa uma impressao forte e simples: uma linha de fuga no pensar o tempo.
Memento e' um filme sobre memoria. E leva-nos tambem para problemas de identidade, individualidade e etica. Mas o que tem de mais brutal e' aquilo que faz a' nossa concepcao do tempo.
Depois de ver memento ja nao ha relogios ou calendarios que nos valham e podemos ai, bem antes da aparicao do problema etico que a cena final nos atira, pensar o tempo de novo. Pensar o tempo antes da etica!
E' um filme que me vai fazer pensar durante meses...

17 June 2010

Ler/viajar, viver/mastigar

Viajar com livros na memoria e' potenciar uma viagem. A Índia do Kipling e do Tagore, a Sudamerica das Venas Abiertas, do Vargas Llosa ou do Sepulveda, o Shanghai do Malraux... e, para alem da musica, a terra das imagens também, o Japao do Ozu (e do Andando), a Índia do Apu, o Brasil das Aspirinas e Urubus, e claro, e' aqui nos Estados Unidos que faço uso dos, de outra forma inúteis, tantos filmes Americanos que vi. As referencias multiplicam-se a cada momento. Mas os livros são o que mais enriquecem uma viagem. E são muito poucas as letras que trago. Isto enquadra-se na minha aprendizagem de viagem: os livros, a bicicleta, o navio, o couchsurfing, a boleia, o sorriso, etc. Viajar e' aprender a viajar, como viver e' aprender a viver.


Mas a verdade e' que nunca gostei de ler! O corpo queixa-se e quer sempre mexer-se, usar-se. E o cérebro pede mais tempo de letras. Ler sempre foi como mastigar uma iguaria, quando desfazemos o bife com os dentes já sentimos aos poucos o seu sabor, mas ainda nao ha prazer senao numa esperanca (como a esperanca no Sol ou amor de amanha). Mas os livros sabem a papel, e ler sabe a mastigar papel. Nao fosse a esperanca, queimava-os ja'! Mas e' no engolir, o sempre grande momento de virar a ultima pagina de um livro, e no digerir que esta' o prazer do garfo. O que vale também são aqueles momentos de memo'ria em que nos lembramos do que comemos, em que se abre o apetite para mais. O lembrar o que já se comeu e sonhar com mais. A paixão pelo "já ter lido", Ah, o viajar pelos livros que já li! Ah, as memorias das letras, e portanto, a fome de letras como quem conversa sobre francesinhas depois de uma tarde sem comer.

Viajar e' o oposto destas letras/comida, as fotos de viagem valem tão pouco... O viajar faz-se precisamente na "leitura", no mastigar, no evento. Viajar e' sentir o vento na cara e nunca recordar a pele e o vento. O melhor do viajar e' aquele sentir das letras a passar diante dos olhos. Tomara eu saber pousar os olhos no livro como quem lança os pés descalços ao caminho!

16 June 2010

Sonho cancelado da' em viagem encapsulada no tempo

Havia um plano interessante para a passagem para as Américas:



Era uma viagem de 11 dias pelo Pacifico fora em cabine de classe: eu, 10 passageiros e umas boas centenas de contentores. O itinerário era Pusan, Korea do Sul ate' Long Beach, Los Angeles, USA. Depois de vários contactos com quem me poderia vender o exótico bilhete, entendo que as três semanas de espera pelo VISA Americano e pela viagem (as partidas sao quinzenais) seriam longas e caras, nao estivesse eu no Japao. Foi um plano bom de manter e a verdade e' que ja estou arrependido de ter trocado os 2500eur que a brincadeira me poderia custar por um voo entre Osaka, Japao e Seatle, USA.
Ha sempre esta relação com o mar paisagem, quadro que mexe e dai um devir marinheiro. Era esta a oportunidade. Ficou no Japão este grande devir, o devir marinheiro, o devir marítimo.


Em Osaka, a sul de Toquio, fico num capsule hotel. Este capsule hotel e' o sitio mais estranho que vi em toda a viagem. Na recepcao pagamos e deixamos os sapatos, na sala de lockers deixamos a mochila e vestimos um pijama bege (opcional), subimos a' zona dos quartos e encontramos as capsulas, bege:



O chão e' de alcatifa castanha clara e tudo nos da' a impressão de estarmos numa nave espacial. Na sala comum há sofás, maquinas de jogos e revistas manga. Todos os guests estao de pijama bege, todos estão sozinhos, ninguém fala com ninguém, as televisões ao fundo estão em silencio, alguns guests usam as poltronas confortáveis e auscultadores para dormir ou ver televisão. Outros comem ali os noodles tirados da maquina de vending. Descemos mais um andar e chegamos a' sauna, tiro a roupa toda e entro na sala de banhos, vários homens nus estão sentados em potes pequenos em frente a espelhos e chuveiros muito baixos. Todos se lavam. Eu entro numa sauna muito quente e vejo ai o jogo do Japão no mundial de futebol. Saio e enfio-me num tanque de agua fria, depois num jacuzzi e depois sento-me em frente a um dos espelhos e uso o chuveiro para me lavar como os outros homens. Desde que deixei a recepção, não ouvi uma única palavra! Aqui ninguém fala e parece que estou entre homens mecânicos de pijama bege ou corpos nus. Este homens só podem estar tristes! São membros da praga humana, não te'm espaço e perderam as suas aptidões emocionais!? Um exótico Japonês.
O delicioso okonomiyaki ao jantar ajudou a tirar a esta noite um pouco deste sabor a artificial.







O voo parte de Osaka a's 18h. São 10h de viagem, vou chegar as 4h da manha do dia seguinte! Ah, não, se e' para Este são +8horas, logo, vou chegar as 12h, meio dia, do dia seguinte. NÃO, a linha magica do nosso calendário falso leva-me para -16horas! Vou chegar ao meio dia do dia da partida. Viagem no tempo de 10h que me leva 4 horas para trás!

E assim me deixo de niponices, ate' ja' Ásia!

13 June 2010

Kyoto

Há um sem numero de países a que se chama "Suica da...", Singapura como Suica na Asia, Jordania como Suica do Medio Oriente, Chile como Suica da America do Sul, e por ai fora. Mas a verdade e' que estes paises tem muito pouco de Suica a nao ser o facto de serem os mais ricos e organizados da regiao. No entanto, ha um pais que e' de facto uma Suica fora da Europa: o Japao e as suas inumeráveis semelhanças (incluindo os Alpes Japoneses!). Mas o Japao e' claro uma Suica absolutamente especial. De todos os exotismos que ja vi, nenhum e' realmente moderno, nem sequer o Chines de Shanghai ou Hong Kong. O Japao e' o grande exótico moderno.

O hostel em Kyoto e' aquilo que precisava de ver no Japao: uma casa tradicional japonesa com aquela sala de estar e de jantar tao caracteristica. As portas de correr de madeira e cartao, a mesa baixa, as pessoas descalças, as pinturas japonesas na parede, a janela para um jardim zen, o sake servido a' mesa com luz baixa. E, para completar o cenário, um grupo de viajantes em sintonia.

No ritmo calmo da conversa com sake passou um so Japones que nos ajudava a contextualizar as conversas: o Roberto, filho de uma brasileira mas Suico de gema, e' igual ao Johnny Depp, viaja a' boleia pelo Japao e fala-nos das personagens incríveis que conheceu na estrada; a Marion dos Alpes Franceses e' uma verdade fille de la montagne que sorri e partilha as suas coisas com uma naturalidade desarmante, o Adrian filho de Argentinos mas Canadiano de gema, pega na minha guitarra e toca algumas pecas de flamenco incríveis, e a Oh Me, uma estudante de arte vinda de Taiwan que desenha manga profissional e que, em 10 minutos, desenha um Roberto/Johnny Depp em manga impressionante.



Em Kyoto ha dezenas de templos Budistas, o mercado mais limpo e organizado do mundo, lojas de leques, geishas, lojas de bonecas, sentous (banhos quentes), alfaiates, uma loja brutal de kimonos usados onde passamos horas a experimenta-los e um museu de manga onde descubro um admirável mundo novo.



















































































30 years ago a friend of mine also came to Kyoto! He was younger than me and he says:
It looks good, it tastes like nothing on earth
Its so smooth it even feels like skin, it tells me how it feels to be new



He is obviously talking about Japanese SAKE!!!


11 June 2010

Automated Parking Lot in Tokyo

This is such a familiar idea to me. Why drive in the parking lot? You could just put the car in a box and the automated parking lot would stuck it somewhere inside a huge box? Just type your license plate to get your car back. The future in Tokyo: